Prevenção não cresce no ritmo da prática
A iniciação sexual está ocorrendo cada vez mais cedo, enquanto uniões
estáveis vêm sendo assumidas a partir da terceira década da vida.
Consequentemente, múltiplas parcerias (simultâneas ou sucessivas) são
habituais na vida sexual dos adolescentes. Alternativas que favoreçam o
sexo responsável, porém, não têm acompanhado tal evolução. ...
A situação é, historicamente, bem diversa da desejável. No fim dos anos
1990, a chamada gravidez precoce resultava na primeira causa de
internação de jovens entre 14 e 19 anos, em hospitais do Sistema Único
de Saúde (SUS), por ocasião dos respectivos partos. Tal era a gravidade
dessa situação que a sexta causa de internação no SUS de meninas nessa
mesma faixa etária se devia a motivações externas à saúde física, entre
as quais a tentativa de suicídio. Essa dura realidade ainda assombra a
vida das nossas adolescentes.
Some-se a isso que o abuso sexual na infância é bem mais frequente do
que se
supõe, condicionando crianças e adolescentes à extrema falta de
autoestima, dissociação do pensamento, autodestrutividade associada ao
comportamento sexual de risco ou negação e recusa do contato sexual na
vida adulta.
No Brasil, a iniciação sexual ocorre, atualmente, por volta dos 15
anos, com margem de dois anos para mais ou para menos (entre 13 e 17
anos de idade), tanto para meninos quanto para meninas. Em
contrapartida, com jovens entre 18 e 25 anos, apenas 40% das mulheres e
metade dos homens referem o uso de preservativo em todas as relações
sexuais. Nas faixas etárias maiores esses índices são ainda mais baixos,
mesmo entre solteiros e separados. Esses números denunciam a falta de
padrão de uso adequado do preservativo no Brasil, em todas as faixas
etárias.
O desequilíbrio entre o incremento da prática sexual e a precária
prevenção de sexo de risco faz crer em desinformação sobre o assunto.
Entretanto, conforme atesta trabalho realizado entre 1997 e 2001 pelo
Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex), do Instituto de Psiquiatria
do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo, o nível de informação é, de longa data, bastante satisfatório
nesse quesito (97,5% conhecem e sabem a função do preservativo), mas
dissociado da prática de sexo protegido.
Persiste o mito de que a educação sexual não soluciona, mas incentiva a
experimentação ou aumenta a chance de atividade sexual precoce, apesar
de não haver evidência que comprove essa ideia, segundo revisão feita
pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em mais de mil artigos sobre
programas dessa natureza. Estudo recente do Hospital da Criança de
Cincinnati, nos EUA, demonstrou que, ao contrário do que muitos pais
temiam, a vacina contra HPV (papilomavírus humano) não alterou o
comportamento sexual das adolescentes. Ou seja, essa imunização não fez
com que elas praticassem mais sexo desprotegido nem que passassem a
fazer sexo com maior frequência. Vale lembrar que é cada vez mais
habitual a precocidade com que crianças se tornam púberes, em todo o
mundo. A maior exposição desses jovens a estímulos diversos (e não
exclusivamente sexuais) explicaria, pelo menos em parte, essa crescente
precocidade.
Segundo estudos americanos, adolescentes de raça negra e hispânicos se
expõem mais à mídia, apresentando maior prevalência de iniciação sexual
precoce, doenças sexualmente transmissíveis (DST) e gravidez, quando
comparados aos brancos e asiáticos. No entanto, ainda não foi possível
distinguir o que é causa e o que é efeito: maior exposição desencadearia
os eventos sexuais ou, ao contrário, maior interesse sexual prévio
favoreceria a exposição?
A infância perdeu em ingenuidade o quanto adquiriu em possibilidade de
acesso ao conhecimento, o que se pode avaliar pelo apego e domínio dos
assuntos de informática. A mesma informática a que se pode atribuir
parte da desaceleração com que o adolescente de hoje evolui
emocionalmente, em razão de estar menos estimulado pela
imprevisibilidade dos relacionamentos interpessoais e mais motivado
pelos softwares que obedecem incontestes a um comando digital.
Temos assistido, então, à adolescência prolongada, como medida de
autopreservação contra um mundo em impressionante transformação. É nesse
contexto que adolescentes precoces se transformam em adultos tardios,
em nome de um maior “preparo” para as adversidades, condição que os
próprios adolescentes se permitem e seus pais acatam.
A iniciação sexual é um excelente parâmetro que ilustra esse paradoxo
de “início precoce de sustentabilidade protelada”: cada vez mais cedo se
engajam em atividades sexuais e cada vez mais tarde estão aptos a
responder integralmente por esse engajamento.
Tentando erraticamente modificar esse panorama, campanhas pela
abstinência sexual foram prioridade no governo Bush e se consagraram por
True Love Waits (Amor Verdadeiro Espera), Pure Love Alliance (Aliança
do Amor Puro) e Silver Ring Thing (Anel de Prata), entre outros
movimentos, para os quais foram investidas centenas de milhões de
dólares ao ano, em meados da década passada. O professor de sociologia
Mark Regnerus salienta que os objetivos práticos subjacentes dessa
campanha, a qual teve alguma repercussão no Brasil, não foram
alcançados: evitar gravidez precoce e DST.
Esses, entretanto, não são os únicos ou mais importantes problemas que a
educação sexual deve encarar. Há quase duas décadas foi publicado um
estudo comparativo entre universitárias que sofreram e que não sofreram
abuso sexual na infância. Observou-se que as abusadas tinham mais
atitudes negativas em relação ao sexo, menor uso de contraceptivos e
menos recusa de sexo não desejado, menos prevenção de DSTs, mais
negligência do parceiro quanto ao sexo seguro, mais vitimização sexual
na vida adulta e mais uso de substâncias psicoativas.
Especialistas reconhecem que é fundamental antecipar e ampliar o
conhecimento da sexualidade para se conseguir prática sexual consciente e
saudável, antes que o exercício de “tentativa e erro” se imponha. Ora,
não é possível preparar quem quer que seja para a iniciação sexual, sem
instrumentalizá-lo para a vida, como um todo. Essa preparação não se
restringe a fornecer informações sobre biologia, anatomia, reprodução,
sexo seguro, sexo de risco, DST.
Aos adultos cabe trabalharem para transmitir, desde cedo, o que o
computador ou o amigo mais próximo não estão capacitados. Não exatamente
um modelo de desempenho em que o jovem se espelhe, mas a valorização da
ética, do bom senso e da responsabilidade, na qual o jovem se inspire.
Proximidade saudável que gera resultado.
*Carmita Abdo é psiquiatra, livre-docente e professora da Faculdade de
Medicina da USP. Fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em
Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Fonte: CARMITA ABDO - Revista Carta Capital
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