Em Vicente Pires, não é apenas a falta de escritura dos imóveis que tira o sossego da comunidade local. Na mesma via de mão dupla, a população convive com a criminalidade que bate à porta e com a ausência de infraestrutura.
Sem rede de águas pluviais, o asfalto não suporta o volume da chuva, e o resultado são os incontáveis buracos.
“É como se vivêssemos em uma terra sem lei, sem o amparo do governo.
Saí de uma região regularizada para Vicente Pires após ouvir tantas
promessas de que a legalidade estava próxima. Uma cidade com
administração regional não pode ser considerada ilegal. Afinal, a figura
de um administrador é um mero cabide político?”, questiona o servidor
Gerson Lima, 45 anos. Para o morador, a segurança deve ter tratada com
o mesmo cuidado necessário à infraestrutura.
Os casarões da região, que abrigam brasilienses de classe média, são
alvo constante dos bandidos. Em 2013, a Secretaria de Segurança
registrou 194 roubos e furtos em residências de Vicente Pires. Além
disso, 126 carros foram levados por criminosos, entre 66 assaltos e 60
furtos. Ou seja, nem mesmo a vigilância dos condomínios fechados e
comércios intimida os ladrões. ...
Assalto
De dia ou à noite, os criminosos agem em Vicente Pires e deixam a
população acuada diante de tanta violência. Foi o que aconteceu com uma
professora de 50 anos, que na última sexta-feira foi vítima de dois
homens. Ela esperava a filha em uma rua residencial, por volta das
14h30, quando foi surpreendida pelos criminosos. Armados, eles exigiram
o carro e apontaram uma arma semelhante à de calibre 38 em direção à
motorista.
“Tenho reumatismo e quase não consegui sair do carro porque minhas
pernas e meus joelhos doem muito. Disseram que iriam me matar. Eu só
pedi para tirar meu neto de quatro anos da cadeirinha do banco de trás,
que estava dormindo”, relata.
Versão Oficial
O comandante do 17º Batalhão da PM, responsável pela área, tenente
coronel Paulo Henrique Tenório, afirma que duas viaturas fazem o
patrulhamento em Vicente Pires. Outros dois carros do Grupo Tático de
Operações e quatro motocicletas são responsáveis por fazer o
policiamento nas principais áreas comerciais das ruas 3, 4, 4A, 5, 8, 10
e 12. As áreas residenciais também são alvo de visita da PM. “Nesta
semana vamos dar início à Operação Cerco Total, que prevê diminuir o
índice de furtos e roubos a veículos e comércios”, esclarece. No
entanto, segundo Tenório, Vicente Pires é uma área facilitadora para
furtos e roubos de veículos em razão da saída pela Estrada Parque
Taguatinga (EPTG) e Estrutural. “Até que a PM seja acionada, em minutos
os suspeitos já fugiram por essas vias”, explica.
Carro é roubado pela segunda vez
No caso do assalto à professora, além do carro, os criminosos levaram
cerca de R$ 3 mil que estavam no interior do veículo, roupas, documentos
pessoais e cartões de crédito. O prejuízo ainda está sendo
contabilizado. Dois dias depois, o carro foi encontrado carbonizado em
Ceilândia. O Fiat Línea ainda vai ser pago por três anos e meio.
“Não sobrou nada. Isso deixa a gente com um sentimento de muita
revolta. Não existe mais carro, pois o que tem agora é uma lataria
velha. O nosso policiamento precisa ser mais eficaz”, lamenta a vítima.
O mesmo carro havia sido tomado de assalto em junho passado. O
veículo foi achado no Gama. “Ando com medo e estou refém das grades de
proteção da minha casa. Ainda bem que tive a minha vida e a do meu neto
poupadas, mas isso vai acontecer até quando?”, questiona.
Alto poder aquisitivo atrai bandidos
O delegado-adjunto da 38ª DP (Vicente Pires), João Maciel, explica que a
região é visada por bandidos em razão do poder aquisitivo médio alto da
população. Além disso, ele argumenta que nem todos os condomínios
possuem aparatos de segurança que inibem a entrada de estranhos. “O
período de férias também contribui para um maior número de assaltos e
furtos na região”, completa.
O delegado conta que os carros roubados e furtados costumam ser
levados para uma região próxima a Goiás, onde é feito o desmanche. E,
segundo Maciel, a maioria destes veículos que são produto de roubo
acabam sendo incendiados, para dificultar o trabalho da perícia ao
buscar impressões digitais.
Insegurança
A sensação de insegurança também paira sobre os comerciantes. A dona de
uma loja de material elétrico, Cinthia Gomes, 31 anos, trabalha há
seis anos próximo a um posto da Polícia Militar em Vicente Pires. A
distância é de aproximadamente 600 metros, mas, segundo a empresária, a
instalação não inibe os assaltos ao comércio.
“A gente não percebe nenhuma abordagem aos suspeitos aqui na região do
comércio, e de fato a sensação de insegurança existe. Os assaltos são
constantes e o jeito é apelar para a segurança privada”, diz.
A situação é a mesma para o dono de uma loja de conveniência de um
banco, Divino Mendonça Ribeiro, 61 anos. O empresário já foi roubado, e
na época levaram cerca de R$ 7 mil do estabelecimento. Depois do
episódio, o comerciante investiu em 12 câmeras de segurança e um sistema
de alarme.
“Brasília não tem segurança, e aqui em Vicente Pires é só Deus e o que a
gente tem de segurança interna para poder nos ajudar. Infelizmente
câmera não inibe ladrão, e patrulhamento da polícia a gente nem vê. Eu
que às vezes ligo quando vejo alguém suspeito rondando a área”, conta.
Em contrapartida, o administrador da cidade, Glênio José, garante que
Vicente Pires é uma das cidades menos violentas do DF. Ele ressalta que a
polícia faz rondas ostensivas constantemente. Entretanto, segundo ele,
é feito um trabalho para diminuir os índices de criminalidade. “Uma das
iniciativas que a administração adotou, junto às forças de segurança
pública, foi determinar o fechamento mais cedo de bares e
restaurantes”, diz.
Buracos nas pistas
As imensas crateras nas pistas de Vicente Pires são outro impasse longe
de solução definitiva. Mesmo em tempos de seca, os buracos se espalham
pelas vias. Em períodos de chuva, a realidade é ainda pior. Além da
crateras, há os alagamentos. Em algumas vezes, a água chega a encobrir
as rodas dos veículos e ainda assim alguns motoristas insistem em
atravessar.
Embora toda a região esteja comprometida, os locais mais ameaçados são a
Colônia Agrícola Samambaia e a Vila São José, além das ruas 3, 8, 19 e a
chácara 122.
Para tentar solucionar o problema, foi liberada do PAC 2 uma verba de
R$ 420 milhões para a construção de um sistema pluvial, e mais R$ 80
milhões do GDF para construir a drenagem pluvial.
Burocracia
O administrador de Vicente Pires, Glênio José da Silva, explica que já
existe um projeto e há um planejamento definido para a obra. “Já foi
feita até audiência como parte de uma das exigências. O que ainda está
pendente é a assinatura do contrato junto à Caixa Econômica Federal, que
será a responsável por liberar o recurso para a obra. O compromisso
inicial do governador é que as obras sejam iniciadas até o primeiro
semestre deste ano”, diz. Apesar da expectativa, ele acredita ser
difícil fazer as obras no período chuvoso. “Enquanto isso vamos adotar
medidas emergenciais.”
Morador de Vicente Pires, Eurico da Silva Oliveira, 44 anos, já teve os
dois carros danificados por causa da buraqueira. O eletricista diz já
ter gasto mais de R$ 9 mil com reparos. “A situação é precária”,
reclama.
Obras quando?
A Secretaria de Obras explica que a solução definitiva para a cidade
só é possível com as obras de drenagem pluvial e pavimentação
asfáltica.
Os projetos já foram selecionados. Falta assinatura da Caixa Econômica, prevista para este primeiro semestre.
Sobram problemas nas ruas da cidade
Para não danificar o carro, o morador de Vicente Pires Wabson Martins
Pinto, 44 anos, prefere dar uma volta maior dentro da cidade. O percurso
fica mais longe. “O governo até vem e tenta asfaltar os buracos, mas a
medida não resolve. Sempre que chove, as crateras voltam a aparecer. Não
adianta consertar se não existe um sistema de águas pluviais”, afirma.
Além de enfrentar problemas com buracos e alagamentos, quem vai a
Vicente Pires também precisa lidar com os endereços confusos.
Sem contar outros obstáculos no meio do caminho, como um quebra-molas
construído na entrada da cidade por quem entra na região por Águas
Claras. A comunidade local diz que a construção foi feita para ajudar a
água da chuva a escoar para as bocas de lobo, mas a administração não
confirma. “Um quebra-mola não é suficiente para segurar a velocidade de
uma chuva”, garante o administrador regional da cidade.
Fonte: Isa Stacciarini - Jornal de Brasília - 15/01/2014
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